Cantores do Núcleo de Ópera brilham na montagem de Dom Giovanni


Quatro cantores líricos paraenses formados pelo Núcleo de Ópera do Instituto Estadual Carlos Gomes brilham no palco do Theatro da Paz interpretando papéis de destaque na montagem da Ópera Dom Giovanni, em cartaz em Belém.  A temporada deste ano do XVI Festival de Ópera do Theatro da Paz revelou o talento desses artistas, alguns ainda bem jovens, como a soprano Dhuly Contente, e outros já com experiência em grandes montagens, como a soprano Kézia Andrade, que estudaram canto aqui mesmo na capital e ganharam destaque ao se aperfeiçoar em cursos de canto proporcionados pelo Instituto Estadual Carlos Gomes (IECG).

O incremento dessa atividade na principal instituição musical do Pará e terceira escola de música mais antiga do país é fortalecido a partir da criação do Estúdio Ópera, um curso de extensão idealizado em 2013 pela soprano Jena Vieira, quando retornou a Belém após um período de estudo nos Estados Unidos. De lá pra cá, o que começou como curso de extensão ganhou reconhecimento e há um anofoi transformadoem Núcleo de Ópera, proporcionando aos participantes cursos com grandes nomes do canto lírico, além de conhecimento específico nessa área.

“São todos estudantes do curso de extensão, que em 2016 passou a ser um Núcleo que promove diversos eventos para profissionais e estudantes que queiram se especializar na atividade operística, atendendo não só o canto, mas a parte cênica, o figurino, a preparação dramática’, explica Claudio Trindade, diretor do IECG.

A soprano Kézia Andrade interpreta pela segunda vez um papel relevante em uma montagem do Festival.  Ano passado, ela foi ‘Liú’ na ópera Turandot e este ano atua como Donna Elvira ao lado do experiente Homero Velho, que interpreta Dom Giovanni. ‘É um grande aprendizado e uma honra atuar ao lado de pessoas que vem fazendo esse trabalho há anos. De uma forma ou de outra eles nos inspiram a prosseguir firmes nesta carreira, que não é fácil’, conta a soprano.

Ela sabe o quanto foi importante para se afirmar profissionalmente o fato de fazer parte, desde o início, do Núcleo de ópera do Instituto Carlos Gomes. “Foi através do meu envolvimento com o Ópera Estúdio que passei a ter mais oportunidade de mostrar o meu trabalho e crescer profissionalmente. Todo conhecimento que adquiri e que venho somando é de extrema importância para a minha formação e atuação como soprano.”

Sobre o papel de protagonista na montagem deste ano, a soprano só tem a agradecer pela oportunidade de poder cantar em sua terra. “A experiência é sempre incrível e me traz um grande crescimento profissional. Sem contar na grande satisfação de poder mostrar a minha arte para meus conterrâneos. Fico sem palavras com o carinho e as vibrações positivas do público.”

Além de Kézia, a montagem da ópera de Mozart em Belém abriu espaço para a jovem soprano Dhuly Contente, que faz a camponesa Zerlina. É a estreia dela como solista em uma montagem do Festival de Ópera do Theatro da Paz. “Fazer meu debut em solo paraense é uma alegria enorme, pois todo artista paraense que tem amor pela ópera sonha em ter a oportunidade de cantar neste palco. É uma sensação de alegria misturada a nervosismo. Eu fiz participação em eventos fora do estado, mas nada significa tanto quanto poder estar em ‘casa’ e ser reconhecida pela minha comunidade”, conta a soprano, que não para de buscar conhecimento. “Fiz aulas no Rio de Janeiro com professores de grande experiência no repertório Mozartiano, para que vocalmente, eu fosse mais fiel ao estilo musical e a personagem.”

Para ela, integrar o Núcleo de Ópera também ajudou nessa trajetória. “Um cantor só se desenvolve nos palcos. Acho que aí é que entra a importância de termos na Fundação Carlos Gomes um Núcleo de Ópera, que nos proporciona a oportunidade de amadurecer e sermos preparados para os grandes palcos’.

Duas vozes masculinas de cantores que também integram o Núcleo de Ópera do IECG também se destacam na montagem: a do tenor Antonio Wilson e do barítono Idaías Souto. Além dos cantores que receberam o convite para atuar como protagonistas e solistas, a montagem da ópera de Mozart em Belém abriu espaço para inúmeros cantores locais que atuam como coralistas.

Para o diretor de Ensino do Instituto Carlos Gomes, Cláudio Trindade, ver esses cantores atuando mostra a importância do trabalho desenvolvido pela instituição na formação desses profissionais. “Em 16 anos de festival de ópera, nunca houve um ano em que se registrasse uma participação tão grande de pessoas ligadas a um núcleo de ópera do Carlos Gomes, ainda mais numa montagem como essa, que vai para outro estado depois daqui. Eu acredito que a formação e a importância que se dá no Instituto para essa categoria é que faz a diferença quando você chama esses alunos para esse tipo de montagem. Isso mantém a tradição de ópera que temos no estado e revela o trabalho que é desenvolvido no Instituto com essa finalidade”, destacou.

Para Cláudio Trindade, o que se vê hoje é resultado de um trabalho iniciado lá atrás e que deve revelar ainda mais talentos. “Eu acredito em futuro promissor porque o Núcleo é atuante, passa o ano inteiro realizando concertos, récitas e a participação de estudantes em montagens no exterior. Em 2014, tivemos a participação de quatro pessoas daqui em montagens de óperas na Alemanha. Em 2015, dois alunos foram para os Estados Unidos também para atuar em óperas. E este ano, alunos nossos participaram de importantes concursos de canto lírico no Brasil e já estão pleiteando os concursos internacionais. Isso fomenta a participação dessas pessoas e só aumenta o nível desses profissionais. Eu acredito que nós estamos vivendo uma fase excelente na produção e no preparo de cantores para atuarem em ópera não só no Pará, mas em qualquer lugar do Brasil e do mundo”, afirmou.

Para o diretor artístico do Festival, Gilberto Chaves, os solistas paraenses são frutos de uma ação lírica no Pará que foi a retomada de apresentações de óperas, com o primeiro festival em 2002. “Lá surgiu o coro lírico Marina Monarcha e alguns se destacaram, não só pelo interesse, mas pelo talento, que é um algo a mais na performance. O mais famoso é o Atalla Ayan, que começou nos nossos espetáculos e agora se apresenta no mundo inteiro. Temos vários cantores que foram se destacando na medida em que foram se preparando. E colocamos no palco para pegar experiência, primeiro em pequenos papeis e depois em papeis superiores. É um momento em que eles apresentam-se aos críticos, maestros, colegas de canto”, relata.

Chaves ressalta a performance dos paraenses na montagem de “Dom Giovanni”. “Nessa ópera temos três exemplos, o Idaías Souto, a Dhuly Contente e, principalmente, a Kézia Andrade, que tem um papel mais destacado. Claro que eles têm professores particulares, mas o festival é uma oportunidade ímpar para progredirem, o que se dá na prática, estando no palco. Isso também proporciona mais conhecimento e novos horizontes fora do estado. É de uma importância muito grade o despertar dessa juventude para estudar o canto lírico. O festival é um terreno fértil para que os talentos brotem e cresçam.”

Dom Giovanni – A ópera tem como enredo a vida de Don Giovanni, um famoso conquistador, e foi inspirada numa popular lenda medieval, a do personagem Don Juan Tenório, uma espécie de anti-herói retratado em 1630 por Tirso de Molina, na obra El Burlador de Sevilla. Até hoje o termo “Don Juan” serve como inspiração para diversas outras linguagens artísticas, como aquele que tem todas as mulheres a seus pés. Don Giovanni é um homem sedutor e que se relaciona com várias mulheres.

A ópera do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart teve a primeira apresentação no Teatro di Praga, especializado em ópera italiana (atualmente chamado de Teatro dos Nobres), em 29 de outubro de 1787, há 230 anos. A reunião de cenas dramáticas e cômicas em um só espetáculo fez Mozart a definir como “opera buffa” em seu catálogo. São 30 cenas, passadas em dois atos, nas quais o público pode se deleitar com cenários versáteis, que tem paredes que se movem durante as cenas e projeções em vídeo.




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