Desacelere, prefeito – Editorial da Folha de S. Paulo


O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), conquistou o mandato apresentando-se como administrador moderno, eficiente, técnico —diferente dos políticos tradicionais. Como sói acontecer, havia mais esforço de marketing nessa imagem do que o reflexo das reais disposições do candidato.

Em mais de uma ocasião, o tucano simplesmente preferiu deixar de lado a racionalidade administrativa, a observação de dados, a análise de custos e benefícios. Tal comportamento fica patente, em particular, na novela do tráfego nas marginais Tietê e Pinheiros.

Neste caso, os pecados do prefeito datam de antes da posse. Ele dedicou parte da campanha a apregoar que reverteria a queda dos limites de velocidade capitaneada pelo então prefeito Fernando Haddad (PT). Fê-lo contra as melhores evidências disponíveis.

A literatura mais consensual aponta relação nítida entre maior velocidade dos veículos e mais mortes no trânsito. Um dos modos mais óbvios e baratos de salvar vidas, pois, é reduzir as máximas permitidas nas vias. Foi o que se fez em São Paulo, com sucesso, a partir de julho de 2015.

No ano passado, o total de óbitos em acidentes caiu 15,1% —de 1.119 para 950. É difícil precisar o quanto essa baixa se deve à medida, mas parece lógico que houve uma contribuição importante.

Entretanto Doria, atento às pesquisas que apontavam a impopularidade dos limites entre os motoristas paulistanos, prometeu ampliá-los —felizmente, apenas nas marginais e não na cidade inteira.

Aqui, seguiu-se o manual do populista, não o do bom gestor.

Surgem agora os primeiros números que permitem avaliar os resultados da política da prefeitura. Como mostrou reportagem desta Folha, a quantidade de mortes nas marginais cresceu. Em 2016, foram 26; neste ano, até outubro, 27. 

Não se pode afirmar com segurança que o aumento da velocidade tenha sido determinante no caso. As cifras, escassas, não permitem maiores análises estatísticas.

Assusta, contudo, a ligeireza com que Doria descartou a necessidade de estudos que lancem luzes sobre a questão. “Não é preciso nem estudar. Basta analisar as informações para ter essa certeza”, declarou, com o argumento de que os acidentes fatais foram motivados por imprudência ou pelo uso de álcool. 

Numa gestão moderna e racional, o prefeito seria o primeiro a exigir que todas as políticas públicas estivessem amparadas em boa ciência e sob contínua avaliação. Não chegamos lá ainda.

Editorial publicado na Folha de S. Paulo.

 




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